Era uma casa de esquina, dessas que já nasceram velhas. A família morava ali havia três anos e nunca tinha descido ao porão — a porta vivia trancada por fora, e a chave, segundo os antigos donos, tinha se perdido na mudança. No inverno de 1987, o cheiro começou. Doce, denso, vindo de baixo do assoalho da cozinha, mais forte sempre depois das onze da noite.
Quando finalmente arrombaram a porta, o porão estava vazio. Chão de terra batida, paredes de pedra, nenhuma janela. Mas havia marcas no barro — sulcos paralelos, como se algo tivesse sido arrastado em círculos, vezes sem conta, no mesmo lugar. E havia o som, que ninguém da rua jamais admitiu ter ouvido: uma respiração lenta, pausada, que não parava quando a casa inteira prendia a sua.